Ainda estamos aqui
- Samarone Lima Oliveira
- 3 de dez. de 2024
- 3 min de leitura
Acabo de ler uma reportagem da Priscila Carvalho, publicada pela BBC News Brasil, sobre o impacto do filme “Ainda estou aqui”, nos jovens, que começaram compartilhar histórias vividas por seus pais e avós.
Vale à pena ler a matéria e assistir o filme.
Um problema gigantesco que temos, sobre os 21 anos de ditadura, é que as novas gerações sabem muito pouco sobre a vida de um país comandada por uma casta de velhos comandantes militares retrógrados, conservadores até a medula, caretas, racistas, repressores, que usaram a tortura como principal arma para meter medo na sociedade.
Foram 21 anos de crimes sem julgamento, e uma transição para a democracia lenta, lentíssima, para que ninguém fosse julgados, e os vestígios dos crimes, ocultados.
O fato de uma nova geração se interessar pela memória deste tempo, já valeu todo o esforço do Marcelo Rubens Paiva, para que esta brutalidade não ficasse no passado, como uma memória pessoal. É uma memória do povo brasileiro. Temos que que continuar lotando as salas de cinema, comprar o livro, outros livros, ver documentários, saber o que aconteceu nestes anos de “pau de arara”, uma engenhoca onde os presos eram pendurados para serem torturados.
Eu só me interessei pelo tema da ditadura porque, um belo dia, apareceu um livro lá em casa, intitulado "Brasil: Nunca Mais". Era o ano de 1985, eu tinha 16 anos, e comecei a ler, e fiquei impressionado com os relatos.
“Bem vindo, Samarone, você acaba de conhecer o que acontece com as pessoas durante uma ditadura”, me disse o livro.
Só faltou um aviso, ao final:
“Agradeça. Sua família atravessou intocável por uma ditadura”.
Em 1993, ainda no curso de jornalismo, resolvi pesquisar sobre o tema, e nunca parei. Entrevistei mais de 100 pessoas. Nenhum deles tinha escrito livros, dado depoimentos, alguns sequer falavam sobre o assunto com familiares.
Escutei histórias inacreditáveis, de força, solidariedade, medo, desespero, solidão absoluta, tentativas de suicídio, mergulho na loucura, perda de amigos, parentes, trabalho, mas também de amores efêmeros, longos, amizades infinitas, coragem, superação.
Um homem que trabalhou para a repressão, e ajudou a matar vários militantes, disse com todas as letras, o que aconteceu, na “transição democrática”:
“Os piores torturadores, os fascistas mesmo, foram para a Polícia Federal”.
Ninguém foi julgado pelas torturas, assassinatos, covas clandestinas, desaparecimento de pessoas. Principalmente, pela bela geração que iria assumir o protagonismo, e virou inimiga número um dos militares. Ser da UNE era ser subversivo..
Lembro de cada encontro com esta geração, anterior à minha. Foi mesmo muita sorte, ter me aproximado deles, com minha timidez que facilitava as conversas. Como eram solidários, empáticos, sonhadores, como tinham histórias de vida tão intensas para compartilhar. E como amavam e amam a vida com tanta intensidade…
Eu chegava, com meu gravador, e escutava.
Uma delas, ao saber do assassinato de um grande amigo, pediu ao marido para sair de casa, e pegar a estrada, sem rumo. Queria apenas ficar num lugar com muitas árvores.
Ele pegou uma rodovia, até chegar a um lugar cheio de árvores.
Ela desceu e começou a chorar, gritar, urrar, durante muito tempo.
Fez isso durante semanas, para não enlouquecer. Sempre, antes de ir trabalhar, descarregava seu desespero.
“Aquela dor precisava ser gritada”, disse.
Ano passado, nos encontramos na estreia do filme “Zé”, em Belo Horizonte.
Ela estava linda, sorridente. Se emocionou muito com o filme sobre seu amigo, José Carlos Novais da Mata Machado, assassinado no Recife em 1973.
Como já se passaram 31 anos, desde o primeiro testemunho, algumas pessoas muito queridas já morreram. Mas os levo comigo.
Uma geração que lutou ainda está aqui.
Se aproximem. É uma espécie rara e linda.
Para Dulce, que chorou entre as árvores, e me contou tantas coisas lindas.
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